BELEZA

Assistindo a um filme pensei na beleza que reina nos dias de hoje, pra muitos uma beleza artificial, comprada com cartão de crédito. Beleza siliconada, iludida por onde deveria fluir a mais sincera sensação, o mais sincero sentimento e o mais sincero olhar. Nos enganamos todos os dias observando e caindo nas tentações do físico, do material, daquilo que é vendido, muitas vezes por nós mesmos, como mercadoria. Os nossos corpos são muito mais do que mostramos, transcendem o limite do toque e da atração física. Beleza verdadeira: a do visual ou a do sentimento real? Belo, pra mim, não é a plástica que esconde a essência da mulher, os defeitos da alma nem tão pouco a estética perfeita, aliás, qual a graça da perfeição? Reparar no corpo distante e achar que quando estiver próximo, ou até mesmo unido, terá a mesma sensação de minutos atrás é deixar-se enganar por um olhar crítico e egoísta, que observa a própria satisfação e não o prazer mútuo. O que me chama a atenção nos casamentos não é um vestido bonito, uma igreja decorada ou mesas dentro da etiqueta, me emociono com a troca de olhares e a sintonia dos noivos, a afinidade dos sutis toques ao cortarem o bolo, das lagrimas ao dizerem “sim”, das mãos dadas e bem apertadas ao saírem da igreja, e o mais interessante, porém não menos contagiante, noivos se entreolhando no meio da festa e dos convidados. Verdadeiras essências de um casal. Beleza é muito mais do que enxergamos, é cheiro próximo antes do beijo, pele com pele, olhos fechados com a química do amor rompendo as barreiras e os pudores do coração, música da vida deixando de lado as cobranças da razão, físico com forças unidas pela conquista de um mundo particular, orgasmos múltiplos de prazeres compartilhados em uma fração de segundo do dia-a-dia. Nessa noite fria estou viajando mesmo e estou feliz. Feliz por saber que ainda existem pessoas que gostam de abraços, beijos sinceros, palavras bem colocadas em momentos de carinho, admiradores secretos e virtualmente expostos. Sei que no fundo, lá no fundinho da nossa alma, o que achamos bonito é a pureza da criança quando sorri ao ganhar uma bala. Simplicidade que mostra se existe ou não algo de belo. Exageros servem para chamar atenção, a sutileza do amor não é medida na marca que veste a máscara e sim na linha existente entre os olhares. Velhinhos de mãos dadas não são perfeitos e são bonitos. Acabo de imaginar uma cena; o casal que se beijava não o fazia só com o corpo, mas sim com o espírito, uma música de fundo narrava a silenciosa ação de duas pessoas que realmente estavam ali focadas em uma percepção extra sensorial, talvez estivessem fora de seus corpos se beijando com a benção da verdadeira entrega, mostrando uma certeza: sinceridade na paixão. Sinceridade que falta hoje em dia, distante dos nossos ouvidos e dos enamorados, talvez porque estamos mais preocupados em ver a sentir, exigir riqueza de imagem ao invés de perceber que o de dentro nos leva a uma melhor viagem. Hipocrisia construída com pilares frágeis que desabam diante o primeiro problema, escuridões camuflando como mágica a mentira absorvida e não sentida do mundo, pessoas achando que a felicidade está embutida em uma beleza plástica. Como é belo querer estar sem precisar ficar, amar sem se preocupar, beijar sem parar, chorar por cada dia viver, sorrir pra retribuir, alcançar sem esforço as medidas exatas do encaixe dos dedos, fazer um amor tão gostoso que cada segundo equivale a séculos de prazer, perceber o local fixo do ponto de distancia dos corações e acima de tudo, regar a semente ingênua e sensível da arte do casal. Tu, és bela quando sabes que a energia de seu dono rompe a linha do imaginário, desliza na correnteza do sonho, une-se a natural alegria do ser, o principio de tudo, o nascimento de um amor que, semeado com sinceras lágrimas vai gerar o mais certo fruto divino das almas: a vida.
Escrito por Sid às 00h32
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