Conto da Quinta É SÓ UM PEGUINHA

Olhou para o lado e a segunda garrafa de vinho tinto seco já estava aberta. Já passava das 22 horas quando decidiu não ficar mais em casa. Era uma sexta-feira e a única coisa que pensava era na raiva que transitava pelo seu corpo, fazendo cada pêlo se arrepiar diante a idéia de ficar em casa, das indignações que vinha tendo sobre a vida, o mundo e as pessoas. Parecia ter alguém dentro do seu corpo lhe empurrando para fora da própria casa, uma voz dizendo que a noite estava de braços abertos para as aventuras escuras que só esse momento do dia proporciona. E foi, seguindo seu instinto, que agora já não tinha certeza de ser seu mesmo. Após passar por vários bares decidiu parar num onde provavelmente encontraria algum conhecido. E encontrou não um, mas vários se preparando para uma festa. Por que não? Pensou. Voltou para o carro e seguiu rumo a uma casa desconhecida, bonita, com portões altos, um belo gramado, muitos carros parados, gente entrando e muita bebida nas mãos alheias. Ao entrar já se ouvia o som alto da pista de dança, porém, preferiu ir ao banheiro antes. Quando saiu deu de cara com um amigo de infância, que não estava no bar, mas havia marcado com todos de se encontrar lá. Um belo sorriso abriu a conversa dos dois, que em menos de meia hora já estavam bebendo e conversando com algumas garotas. Embora um tanto deslocado dos assuntos, nunca era esquecido pelas pessoas que ali estavam e por uma em especial sempre ganhava um olhar a mais. Decidiu dar uma volta para respirar e o que mais encontrou foi fumaça. Uma breve tontura sentiu ao passar pela pista, mesmo assim entrou e viu todo tipo de gente dançando com todo tipo de gente. Seus pensamentos, que estavam aéreos ao sair de casa, agora já nem lhe pertenciam, o corpo era um simples coadjuvante da sua alma. Encostou na parede e um mulher veio lhe falar algo, não ouviu, ela continuou até beijar-lhe o rosto. Ele virou-se, a mediu e saiu andando, como se em sua frente estivesse um vulto de energia negativa tentando levá-lo para as mais profundas experiências promíscuas. Talvez um lapso de consciência que teve nessa noite. Já no quintal sentou-se numa mesa vazia e antes mesmo de se ajeitar seus amigos já estavam ao seu redor dando risadas, falando alto, sentando-se, chamando algumas garotas e manuseando algo que não conseguia enxergar. A maconha já rolava solta quando percebeu do que se tratava. Nunca havia experimentado, em alguns momentos de sua vida teve vontade, mas certos valores e medos o barraram. Agora, com raiva de si mesmo, do mundo, das pessoas, sem saber ao certo como pensar em relação à vida pensou: “Por que não?”. Olhou atentamente todo o ritual de preparação de um dos “baseados”. Viu um de seus amigos de infância “dixavar” a erva, enquanto outro já preparava um papel, misturaram um com o outro e apertaram com um galinho de árvore que estava por ali, fecharam com uma bela lambida e pronto, a felicidade momentânea em foma de ilusão. Acenderam e o ritmo da loucura começava a dominar o ambiente que ali estavam. A mesma garota que conversou com ele e lhe olhava no início da festa agora sentava ao seu lado e nitidamente se propiciava em sua direção. Seus amigos discretamente aprovavam a bela moça. Porém seu interesse maior era em algo que eles nunca imaginaram que fosse acontecer. - Dá um pega? Disse para todos ouvirem. O som parou, as gargalhadas, o papo, o assunto espirou, os olhares se arregalaram e todos olharam na mesma direção como se não tivessem ouvido direito. Pensava que se existia tanta alegria nas pessoas que usavam a tal droga não via problema em experimentar. Todos teoricamente eram seus amigos, se algo lhe acontecesse estariam ali para acudi-lo, ao seu lado uma bela donzela que, pelo visto, teria muitos prazeres em cuidar da sua pessoa. Além do mais era apenas maconha, uma erva natural que não faz mal. Pensou em sua espiritualidade, como isso lhe afetaria, mas já não estava consciente e muito menos racional para ponderar entre o que era certo ou errado para sua vida e não chegou a nenhuma conclusão. Não ligava mais. Pegou o tal de supetão, pois alguns evitavam que ele aderisse à tentação. Já estava em suas mãos, queimando, esfumaçando, instigando. Teve a mesma sensação que o levou a sair de casa, como se seu corpo não fosse dominado por si mesmo, como se alguém estivesse manipulando todas as suas ações. Sua boca chamava o baseado como se os dois tivessem sido feitos um para o outro. Na roda alguns criticavam tal atitude enquanto outros pareciam ter prazer em ver mais um fazer parte do ciclo de loucura e perdição. A garota ao lado ficou quieta. Agora com a certeza de que estava fazendo a coisa certa, iniciou o movimento da mão para a primeira tragada de sua vida. Nunca tinha fumado, nunca tinha usado nenhum tipo de droga, mas nesse momento achava que não tinha nada a perder e se a vida não tinha sido como queria até ali, pior não seria por causa disso. Quando foi encostar na boca a garota ao lado travou seu braço e lhe perguntou? - Tem certeza? Olhando-o no fundo dos olhos. Ela não fumava. - É só um peguinha - respondeu sem o menor peso na consciência. De repente ouviu um barulho de algo se quebrando, olhou para o lado e viu a segunda garrafa de vinho, vazia, caída no chão de sua sala.
Escrito por Sid às 00h14
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