CORPOS DE AMOR NUM SÁBADO À NOITE
Sábado à noite.
Por mais sossegado que ele estava existia dentro do seu íntimo uma necessidade de sair, talvez uma auto-cobrança por ser final de semana e imaginar que o mundo todo estivesse se divertindo, menos ele.
Ignorou por alguns minutos essa ansiedade e foi ler um livro que há tempos esperava uma chance na cabeceira da cama. Ligou o rádio, abriu o tal, porém prestava mais atenção nas músicas do que na história do autor. Num certo momento, já com o coração acelerado pelos ritmos ouvidos, decidiu sair, tudo de repente, sem muita vontade, mas algo dentro dele dizia que devia se arriscar numa noite solitária.
Se arrumou sem muita vaidade, sem escolher muito o que vestir, um jeans, uma camiseta básica preta, um tênis e perfume. Na hora de colocar o relógio decidiu que não queria saber das horas, ia deixar seu instinto ditar as regras dessa madrugada.
Já era mais de meia noite e o local escolhido foi próximo à sua casa, para facilitar o acesso, se divertir num lugar conhecido e seguro. Chegou, entrou, com um rajada de olhar visualizou todo o recinto e quem estava nele, já sabendo aonde iria ficar e como. Pegou uma cerveja, ficou próximo da pista de dança, em um lugar estratégico para ver tanto quem dançava como a banda, que foi o maior motivo pela escolha do lugar.
A noite se desenrolou e mais algumas cervejinhas entraram pela mente dele, sem que saísse uma só palavra com alguém. Nesse momento se imaginou invisível, solitário e desiludido. Havia algumas mulheres que o olhavam, mas nenhuma lhe chamou a atenção, o tocou a ponto de tentar alguma aproximação.
Teve raiva de si, pois poderia estar dormindo ao invés de ter se exposto a tais sensações de desprezo que sentia do mundo. Pensou em arrumar uma briga com alguns jovens rapazes, “bombados” e folgados que a todo o momento passavam esbarrando, assim pelo menos a noite teria alguma emoção. Conteve esse impulso, ativado pela cerveja e reprimido pelo que restava de consciência.
Olhava o celular na esperança de alguém ligar ou receber uma mensagem e nada. O ser humano é sozinho, muitas vezes quando mais precisamos de alguém, quem mais nos interessa se afasta, dando a sensação de ninguém dar o valor que gostaríamos de receber.
“Vou embora dessa merda, ou eu que sou um merda? Que saco” E foi.
Não contava com a chuva, muito menos em ter bebido tanto. Sua mente já não raciocinava normalmente, seu corpo estava quente, seus batimentos acelerados e sua libido à flor da pele. Para algumas pessoas o álcool tem o don de mexer com as vontades sexuais.
Ir para casa era sinônimo de noite mal acabada, sono mal dormido e insatisfação. Por um segundo pensou em ir atrás de prazeres mais fáceis e rápidos, porém isso era totalmente contra seus princípios. Foi aí que percebeu o quando a mistura da noite, bebida, solidão e desejo podem ser perigosos.
Mesmo alterado, com o diabo próximo tentando levá-lo para as trevas, relaxou, respirou fundo, se acalmou, decidiu apenas tomar um café para depois ir pra casa.
Já estava dentro do carro, molhado e com a brisa do vendo batendo em seu rosto quando refletiu em como existe uma linha pequena entre o bem e o mau, o certo e o errado, o risco e o seguro, o abismo das trevas e a segurança da tranqüilidade da luz.
Nesse momento, ouvindo Jazz, uma música de voz feminina tocando no rádio do carro, sentiu-se carente, com vontade de ter uma mulher ao lado pra lhe fazer um cafuné na nuca, bater um papinho e namorar, pois o desejo sexual foi trocado pela vontade de algo romântico, um amor de verdade, e nesse caso não era a bebida que lhe influenciava os pensamentos, mas o coração.
Chegou à padaria e ao descer do carro reparou na Lua e sua beleza ao clarear os lugares escuros, respirou fundo e o ar da madrugada entrou no seu íntimo, lhe trazendo paz, uma tranqüilidade digna de quem pode ser feliz mesmo estando sozinho, de encontrar essa felicidade dentro da própria alma.
Sentou no balcão e pediu um expresso puro. Colocou algumas gotas de adoçante e paquerou a xícara por alguns segundos antes de dar um golinho. Era no “momento café” com amigos e sozinho onde vinham as suas maiores reflexões da vida, do futuro e do mundo. Embora fosse tarde da noite não tinha como fugir desse clima e a primeira coisa que lhe veio à mente foi a sua ex.
Desejou que ela estivesse bem, feliz e resolvida.
Deu mais um gole no café e pediu outro, afinal, só agora a cerveja estava sendo evaporada pelos poros calmos sentados naquele banco.
De repente alguém o chama.
Era ela, sua ex.
Titubeou, olhou e não acreditou. Ela se aproximou, deu-lhe um belo sorriso e perguntou:
- Tudo bem?
- Sim, e você?
- Também.
Durante quase um minuto os dois ficaram quietos, olhando-se nos olhos, com um brilho que ultrapassava a barreira física da razão, transformando poucos segundos em eternos momentos de sentimentos e sensações. Quando duas almas que se querem encontram-se é porque antes elas já haviam se atraído em outro plano, rompendo qualquer barreira do entendimento humano. Nitidamente algo aconteceu, não explicável e muito menos imperceptível. Os dois ficaram com o mesmo frio na barriga, daqueles que estremecem as pernas e controlam nosso corpo e nossas vontades, fazendo tomarmos atitudes e dizermos coisas que não imaginávamos.
- Você não vai acreditar – disseram os dois ao mesmo tempo.
Eles riram e como um bom cavalheiro deixou-a contar primeiro.
- Acabei de falar de você pra uma amiga, não morre mais.
Ele rindo complementou:
- Acabei de pensar em você.
- Sério?
- Muito.
Não precisavam dizer mais nada, bastava tirarem as máscaras que colocamos, os pudores e o egoísmo de sentimentos que construímos dentro do coração, não assumindo o que queremos e guardando o sentimento do puro amor só pra nós.
Mas não é assim, tentaram disfarçar a vontade que tinham de se abraçarem. Mas não conseguiram.
As mulheres, nesses casos, têm a humildade de assumir o que querem, o que sentem, sem medo do resultado, parece que a sensibilidade delas supera em quilômetros o limite da racionalidade masculina, mostrando que momentos como esse o orgulho fica pequeno diante do amor e de uma sincera vontade.

Escrito por Sid às 23h08
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