TREMOR
Diante do tremor ocorrido em São Paulo nesses últimos dias, comecei a pensar em como tudo anda mudado. Sempre vi esses acontecimentos como algo bem distante de mim, do meu mundo e da minha realidade.
Agora, diante dos meus olhos, abaixo do meu corpo e acima de qualquer suspeita, vejo que tudo pode acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar. Não existe mais limite para as mudanças dentro de nossa existência.
E realmente tudo anda mudando: os valores, os amores, as formas de conquistas, os prazeres e o modo como as pessoas se tratam. Cada vez mais estamos tirando a importância da convivência direta com quem gostamos, substituindo os simples momentos por ocasiões onde o mais importante não é quem e sim o que.
As mudanças estão vindo cada vez mais rápidas em nosso dia-a-dia, transformando, sem que percebamos, não só as estruturas físicas em que nos locomovemos, mas diretamente e radicalmente os modos de pensar em relação à vida.
As relações entre as pessoas estão mais frias, tudo está mais objetivo, menos apreciado e desesperadamente distante. O que anda importando não é mais a curtição do momento e da troca de palavras, hoje o que vale é ir logo ao final. E se titubear é capaz de ser ignorado, deixado de lado ou mesmo tratado com grosseria.
A angustia e a ansiedade de se ter rapidamente as respostas e as conquistas estão acabando com o prazer do processo de aprendizado, além de distanciar os corações dos que se gostam.
Não é só o solo que está tremendo, as pessoas também estão, e o pior, sem perceber. Jogando no mundo todos os anseios e desejos, a maioria das pessoas vai deixando de lado pequenos detalhes que poderiam trazer grandes satisfações, mínimas demonstrações de afetos que poderiam encher almas e amantes.
O egoísmo de pensar só em si, de querer mais e dar menos, a ingratidão, a falta de paciência, a frieza, a falta de atenção em compartilhar e do tesão em curtir apenas um olhar, estão transformando o ser humano em máquina de viver. Objetos de nós mesmos.
Todo está ficando mecanizado, roboticamente estamos agindo por instinto, sem lembrar que na nossa frente sempre terá um ser humano, com sentimentos e emoções recebendo as energias que passamos e desejamos.
Talvez esses tremores sejam de vozes grosseiras espalhadas pelas almas não carinhosas, passos acelerados, pessoas atropelando sentimentos alheios, pensamentos concentrados em resolver problemas materiais, corações secos como pedras diante de gratidões e amores vividos em função do individualismo. Antes só tremíamos de frio, hoje vivemos tantos medos e decepções que quem treme não é mais nosso corpo e sim nossa alma. É a tristeza que presenciamos a todo o momento, vindo de todo lado, abalando e trepidando diretamente nossa esperança de conviver com quem sabe amar.
Escrito por Sid às 23h05
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