E se os nossos olhos fossem câmeras e nossa mente pudesse armazenar tudo que por ela passasse?
Teríamos o filme da nossa vida de uma forma totalmente real, com cenas tão verdadeiras que nós mesmos talvez não assistíssemos. Acho que cada um iria editar de uma forma diferente, colocando em pauta a própria versão de como gostaria de lembrar-se de si.
O difícil seria rever as cenas dos sofrimentos, reviver fatos e ocasiões onde a lágrima escondida não mais seria reprimida, as angustias seriam passadas em primeiro plano e vistas por um ângulo jamais imaginado. A dor poderia renascer do mesmo modo que um dia pairou sobre nossas emoções, mostrando sem dó toda a carga emocional que muitas vezes tentamos esconder.
Nosso olhar seria diferente, com um segundo modo de ver a mesma coisa, talvez, mudássemos as opiniões daquilo que já estava escrito, fingindo que muitos dos tristes momentos que vivemos não ocorreram por nossa culpa, ou mesmo fingirmos que tudo que aconteceu de ruim em nosso passado foi uma ilusão, um sonho, um clipe mal editado, podendo nos levar a novas lágrimas de velhos e curados ressentimentos.
Porém, os momentos de alegria nos fariam rir novamente, vivenciando a explosão da felicidade como se estivéssemos dentro da tela, trazendo de volta cada energia positiva que transbordaram quando estávamos bem.
Rever os melhores acontecimentos nos daria vontade de voltar e fazer tudo de novo, animando o hoje com a inspiração do ontem. Muitos tentariam trazer de volta os mesmos mecanismos que um dia trouxeram aquelas sensações, esquecendo que o tempo passa e essas boas lembranças são para não deixarem para trás o que nos faz feliz, o que nos completa.
Se nossos olhos fossem câmeras provavelmente iríamos montar nossa vida com a idéia que temos hoje, e amanhã mudaríamos de novo. Jamais estaríamos satisfeitos com os momentos ruins, íamos deixar muito mais cenas alegres, as ridículas seriam cortadas, jogadas fora e jamais comentadas, quando são exatamente essas que poderiam trazer humor aos nossos olhos.
Nós nos julgaríamos muito mais que os outros, olharíamos as mesmas ocasiões de um modo mais crítico e racional, esquecendo que na maioria dos momentos da vida o emocional se vale mais, dando a beleza que faz a nossa existência ser como ela é.
No fundo iríamos querer controlar o que já passou, mudar, rever, retroceder, voltar a agir como nos momentos de alegrias, pular os tristes e tirar todo brilho da naturalidade de cada segundo que vivemos com verdade.
Enfim, se nossos olhos não possuem esse dom, se o filme da nossa vida não está bruto para optarmos pelas cenas que nos agradariam, é porque estamos a cada dia, cada situação, escolhendo o que acrescentaremos na história que contamos e armazenamos para nós mesmos.
Cada palavra, cada olhar, sorriso, lágrima, sentimento, emoção e gesto que temos nesse exato segundo, estão somando no filme que montamos. O agora é o momento em que as felicidades e tristezas escolhidas vão ditar o tipo de enredo que queremos para o final de nossa vida.