Conto da Quinta
ATRASADO

Sábado à noite.
Sábado de lua clara.
Érik vai dormir pra descansar, pois mais tarde teria um encontro com seus amigos, lá estaria a mulher que há tempos vinha paquerando e esperando uma oportunidade de arriscar-se. Suas intenções vinham progredindo e sabia que não passaria daquela noite. Eram 20h, teria pelo menos umas duas pra dormir.
Quando acorda vê que as horas passaram rápidas, já eram quase duas da manhã e estava atrasado para o compromisso. Sai voando em busca de roupas e se troca tão depressa que nem se preocupa com as combinações de suas vestimentas.
Caça as chaves do carro e lembra-se que as deixou em cima do sofá. Lá elas não estão. Procura feito um doido em todos os lugares, tal a pressa que só depois de 5 minutos percebe elas em suas mãos. Sai de casa feito um torpedo.
No caminho tenta lembrar aonde era a festa e não consegue. Liga para os amigos, que não atendem ao celular, pois já deviam estar dentro do bar. Seu desespero começa a aumentar e num lapso de memória lembra qual o bairro do lugar.
Acelera em direção às redondezas de onde imaginava ser o local do encontro. Fica no mínimo meia hora perambulando pelas ruas em busca do tal bar. Em sua mente a imaginação de como estaria vestida a mulher de seus sonhos, como ela o receberia, se estaria realmente lá e se, enfim, seria aquela a noite em que consumaria sua ânsia de um simples beijo.
Nessas ocasiões o mundo torna-se uma linha reta entre o desejo e a desejada, tudo escurece e a única luz visível e imaginável vem das energias emanadas da mulher idolatrada.
Érik consegue achar o bar. Embora estivesse atrasado, sabia que se fosse rápido ainda daria tempo de curtir um bom papo e ter uma noite agradável. Lembrou que não passara perfume e seu cheiro não era dos mais agradáveis, reparou também que na pressa esqueceu de colocar as meias. Como disfarçar?
Parecia que nada dava certo, não achava vaga pra parar, estava desarrumado, com medo de não ser natural e estragar tudo, atrasado, ansioso e irritado.
Enfim parou.
Chegando ao bar, seu coração parecia vir até a garganta e voltar. Enquanto ficava na fila de entrada pensava em várias palavras para dizer, em como se comportaria e qual seria seu papo para tentar uma avançada a mais.
Entrou. A fumaça dos cigarros misturada com as pessoas e o som alto fez com que se sentisse um pouco tonto, cambaleou e apoiou-se no balcão do bar. Como já estava ali mesmo pediu uma dose de uísque pra tentar se acalmar, olhando à sua volta procurava seus conhecidos enquanto a bebida não vinha. Algumas pessoas esbarravam em seu ombro mas ele nem se dava conta, e quando olhou para uma delas viu na mesma direção, ao fundo, seus amigos e o que parecia ser sua amada, de costas.
Pegou a bebida e começou a e dirigir a ela, reparou em seu vestido, nas curvas perfeitas daquele corpo, na cintura, nuca, cabelos, mãos, tudo que conseguia observar vendo por aquele ângulo. Não importava mais nada, seu foco era um só. Sua paixão.
Ao se aproximar deu um gole e acabou com a bebida, colocou o copo na bandeja do garçom, ignorou todos e de certa forma a si mesmo. Era o momento esperado, era a cena que vinha imaginando desde que acordou atrasado. Não tinha mais volta, batimentos acelerados, corpo frio em ambiente de calor.
Com a mão suando de emoção tocou no ombro dela, que se virou e, de repente, um susto.
Ela tinha a cara do seu irmão
- Acorda seu Mané, vai chegar atrasado na balada.
Sonolento ele responde - Queeeee?
- Vai Érik, são nove horas, vai tomar banho logo e tirar essa roupa suja de futebol.
Escrito por Sid às 13h41
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