CONTO DA QUINTA
FACADA
Zequinha acorda com um barulho estranho vindo não se sabe de onde.
Assustado na cama se concentrou pra tentar ouvir de onde vinham os ruídos. Conseguiu perceber o que parecia ser um cochicho de sua mãe, ou seria um choro contido?
Depois percebeu que vinha da cozinha, que algo estranho estava acontecendo lá. Deu medo.
Quando um medo desses ocorre dentro de nós há uma mistura de curiosidade com frio na barriga que nos motiva a ir até o perigo.
Com Zequinha não foi diferente. Levantou-se da cama e percebeu que seu corpo estava mole, que o quarto parecia estar mais escuro que o de costume. Dirigiu-se à porta. Passou pelo corredor. Viu que a porta do quarto de seus pais estava fechada. Desceu as escadas. Apoiando-se nas paredes, quando estava chegando próximo à cozinha ouviu barulhos estranhos que não conseguiu definir.
Sabia que alguma coisa estava acontecendo, mas não tinha idéia do que. Devagar colocou a cabeça na porta da cozinha e se surpreendeu com o que via.
Sua mãe sentada estagnada, pálida na cadeira, imóvel, com lágrimas nos olhos e olhando para o lado. Ao lado alguém mexendo em alguma coisa na pia. Um homem alto, forte e mal vestido.
De repente este homem vira-se e cruza seu olhar com Zequinha, que no susto escorrega e cai para dentro. Sem falar nada a troca de olhares induz ele a sentar e ficar como sua mãe. Lágrimas começam a escorrer em seus olhos. Seu corpo começa a tremer percebendo que alguma coisa ruim vinha pela frente, que ele e sua mãe não podiam fazer nada, estão presos, que suas forças são ainda fracas demais pra qualquer atitude contra o ser que estava ali em frente aos dois.
Quando o homem vira totalmente vê-se em sua mão uma faca. Com um brilho que ofusca o olhar de Zequinha. Olha pra sua mãe, que também desesperada arregala os olhos. Os movimentos da faca são precisos, decididos, certeiros.
Os dois olham para o homem pedindo, com o olhar, clemência.
Com um ar sombrio, friamente ele se aproxima de Zequinha com a arma em punho, como quem já tem tudo calculado, certo de que chegou o momento de agir.
A mãe olha desesperadamente para aquilo mas não se move, está dormente, passiva com a situação que passa aos seus olhos, sabendo que tudo que estava acontecendo nunca mais seria esquecido.
Quando a faca levanta pronta a tomar o rumo do alvo Zequinha num suspiro de impulso consegue pronunciar:
- Pára Pai, não quero mais manteiga
- Você e sua mãe não têm o que querer, estão atrasados de novo!
Escrito por Sid às 13h05
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